Alameda 38

Parte 1

Isabela acordou assustada após um terrível pesadelo que tivera. Dirigiu-se a cozinha para preparar o café. Pão, ovos e leite com morango. Na porta da sala estava pendurado o jornal do dia. Chovia muito naquela manhã. Estava frio, embora ainda fosse outono.

Trabalhava fazendo pinturas como uma forma de fugir do estresse. Rostos felizes ou apenas duas bolinhas coloridas na tinta à óleo. Estava morando numa casa velha de madeira, e pretendia não sair de lá. Era uma promessa dela.

A cidade era pequena, não muito populosa, e o clima era extremamente bipolar. Ora muito calor, ora muito frio. Não havia jovens morando lá, já que era difícil arrumar empregos ou ao menos estudar em uma universidade. De noite era silêncio total, ouvia-se apenas estalos de madeira, latidos de cães e os ventos, que eram muito fortes por sinal.

Não havia muitos visitantes. Era como se fosse uma cidade fantasma. Mas havia uma casa em especial com muitos ruídos e muita movimentação, só que não eram pessoas vivas. Na verdade ninguém os via, ou sentia. Essa casa localizava-se na Alameda 38.

Isabela morava na Alameda 38. Morava naquela casa. Ela ouvia os gemidos, as gritarias. Ela via os vários rostos desfigurados, as brancas sangrentas. Sentia muito medo. E quando estes espíritos começavam a se manifestar, Isabela fechava fortemente os olhos na esperança de quando abri-los novamente tudo aquilo tivesse acabado. Mas nunca acabava, e a cada dia estava se tornando mais assombroso.

Parte 2

O dia 20 de maio estava chegando. E quando o dia prometido chegar provavelmente ninguém sobreviva a tempo de registrar alguma coisa como prova daquele terrível acontecimento.

A casa era muito antiga. Toda em madeira com o teto de telhas frágeis. O terreno era enorme, cheio de árvores, e nenhuma iluminação. Ela tinha ficado responsável pela casa desde a morte da mãe de sua melhor amiga. De alguma forma se sentia culpada por isso e achava que cada assombração era merecida.

Quando chegava o verão o sol parecia se desviar daquela casa que ficava extremamente fria. Enquanto toda a cidade chegava aos 32ºc aquela casa não passava de 27ºc. Sua amiga uma vez lhe disse que isso acontecia por causa dos espíritos que habitavam a casa.

– Você precisa sair dessa casa Isa!

Mas Isabela não queria sair daquela casa. Sentia que precisava ficar ali.

Então chegou finalmente dia 20 de maio. O Dia da Morte. Nessa data todos os moradores eram proibidos de saírem de suas casas depois das 20h. Motivo? Bom, acreditavam que os demônios e os fantasmas saiam de seus túmulos e devoravam a primeira pessoa que estivesse na rua naquele horário.

Já eram quase 20h e Isabela estava espiando a rua pelas janelas da casa. Ela sabia que não podia fazer isso, afinal se A Morte a visse ela estaria encrencada. Da pior maneira possível. Foi então que ela avistou um menino, provavelmente seu vizinho. Ele vestia um terno laranja bem chamativo e um chapéu de veludo roxo.

– Garoto! Vá para casa! – Gritou Isabela

O menino não deu a mínima para ela e começou a assobiar. Ajoelhou-se na calçada e catou algumas flores verdes fazendo um pequeno buque. Levantou e começou a caminhar em direção a casa de Isabela.

Enquanto o menino andava Isabela viu um homem atrás dele. Com uma longa capa preta e uma maleta. Não conseguia ver o rosto dele. Quando a criança se aproximou da porta o tal homem abriu a maleta e tirou uma faca e começou a apontar para as costas da criança. Isabela então foi correndo abrir a porta. Mas chegando lá, não havia ninguém. Apenas um buque de flores mortas pisoteadas.

Parte 3

 

Desesperada Isabela rapidamente trancou a porta. E foi para o andar de cima. Pegou uma mala e começou a por suas roupas lá.

– Eu preciso ir embora agora! – disse para si mesma.

Desceu correndo até a porta da sala. Quando chegou lá a porta estava aberta. Completamente escancarada.

– Eu lembro bem de ter trancado – pensou

Começou a andar vagarosamente olhando para todos os lados da casa. Chegou na porta e a fechou. Dando duas voltas na chave.

– Isso não está acontecendo – disse ela enquanto apoiava suas costas na porta.

Respirou aliviada e já se encaminhava para pegar sua mala e ir embora quando viu na parede da sala os dizeres: Isabela você precisa sair dessa casa urgente!

– Não, não e não! Isso não é real!

Alguém começou a bater na porta. Isabela olhou no olho mágico e tinha duas garotinhas vestidas iguais e costas para ela.

– Vocês não deveriam estar em casa? – gritou Isabela de dentro da casa

As crianças então viraram para ela. E de repente um grito. As meninas não tinham rostos. Não havia nariz, olhos, bocas, nada.

– Faltam apenas mais 3 horas – pensou Isabela

Parte 4

O telefone começou a tocar no andar de cima. Um barulho estridente. Isabela subiu as escadas correndo e foi atender.

– Alô?

E ninguém falava do outro lado, apenas um som de respiração ofegante.

– Eu sei que tem alguém aí, quem está falando?

Isabela então sentiu alguém tocar em seu ombro, sem virar para trás apenas com o canto do olho ela viu uma mulher velha, com metade do rosto queimado que apontava para a janela. Ela então olhou para a janela e viu o homem da capa preta que tinha visto anteriormente. Ele parecia estar flutuando.

Enquanto encarava a janela, ela pegou o telefone novamente.

– Quem está falando?

E na janela estava o homem com um telefone na mão. O pescoço parecia quebrado. Ela ficou olhando aquela cena, de repente algo puxou o homem para trás, Isabela foi para janela mas não havia mais sinal do homem. Ele simplesmente desaparecera no ar.

Voltou ao telefone e agora podia ouvir uma voz bem baixa, parecia uma criança: Você precisa sair dessa casa urgente!

Ela então pegou as malas e saiu pela porta dos fundos. Olhando para todos os lados para saber se alguém a seguia. Passou o resto da noite procurando um hotel. Mas as portas de todos os lugares estavam fechadas. E ninguém iria abri-las até o dia seguinte.

Isabela então sentou na calçada em frente ao shopping. Que naquela hora parecia um prédio abandonado. Sem luzes ligadas, sem pessoas e várias tábuas presas a janelas e portas. E ali adormeceu.

 

Parte 5

Um Mês Depois

 

– Ela vai ficar aqui internada mais alguns dias para observação e se não houver mais nenhum problema poderá ser liberada e ir pra casa tranquilamente.

– Obrigada doutor.

Mariana então se juntou ao restante do grupo que estava na sala de espera.

– Pessoal, a Isa tá bem. Vai ficar mais alguns dias sendo observada depois pode ir pra casa.

– Preferia que ela tivesse morrido. Garota insuportável.

– Para Carol! O que fizeram com ela foi errado. Podia ter sido com qualquer um de nós. Pelo menos aqui ela está em segurança. E a gente devia ir pra casa. São quase 3h da manhã. Minha mãe nem sonha que estou num hospital a essas horas.

– A Mari tá certa. Mas pelo menos um de nós devia ficar aqui para caso de emergência. O que acham?

– Eu fico!

– Carol você odeia a Isa, tem certeza que iria prestar atenção se alguma coisa voltasse a acontecer?

– Vão antes que eu mude de ideia. Vou ficar com o celular ligado. Trouxe o carregador e vi que no quarto dela tem duas tomadas. Se alguém quiser me deixar uma grana pra comprar comida de manhã eu não me incomodaria de olhar para aquela falsa.

– Ok, a gente vai e a Cinthia vai te ligar assim que a gente chegar em casa pra perguntar se está tudo bem. E eu acho bom você atender o telefone. Tome aqui meu cartão. Vou anotar no seu celular a senha e qualquer coisa nos chame.

 

Mariana e os outros voltaram para casa numa viagem de duas horas. E enquanto isso Carol lia Morro dos Ventos Uivantes. O hospital estava completamente vazio e muito gelado. Uma das luzes piscava direto ameaçando queimar. Um barulho então veio do quarto de Isabela.

Não havia sinal de médicos ou qualquer ser vivo naquele lugar. Como se todos tivessem desaparecido. Carol então resolveu ir verificar. Ao chegar no quarto se deparou com Isabela em pé. Com os cabelos jogados na cara e as mãos todas ensanguentadas.

– Que merda é essa?

Isabela não se mexia. Parecia ofegante.

– Isabela tu tá bem?

Carol tocou nos braços dela e percebeu que estavam completamente gelados. Ela então correu para a porta do quarto e começou a chamar pelos médicos. Ninguém vinha. Enquanto isso Isabela continuava ali imóvel.

– Onde é que tá todo mundo?

Pegou o celular e resolveu ligar para Mariana.

– Claro que tinha que está sem sinal. Depois vão dizer que não liguei. Maldição! Escuta Isabela, eu vou atrás de algum telefone por aqui. Tenta voltar pra cama, vou deixar a porta trancada.

Enquanto falava com Isabela reparou que a imagem refletida na janela era diferente. Foi se aproximando devagar e então reparou que tinha um homem ali. Ele vestia uma capa preta e estava parado igual Isabela.

Quando estava quase saindo do quarto Carol reparou que Isabela estava começando a se mexer. E o homem da capa preta fazia exatamente os mesmos movimentos.

– Que merda tá acontecendo aqui? Isabela de onde você tirou essa faca? ENFERMEIRAS!!!

Mas nada adiantava. A porta do quarto fechou-se bruscamente atrás de Carol. Que com o susto foi olhar quem tinha fechado a porta. Ao virar para frente novamente viu Isabela apontando a faca contra ela e o reflexo na janela apenas sorria.

O celular começou a tocar. Era Mariana querendo avisar que já tinham chegado.

– Ela não tá atendendo gente.

Enquanto isso do lado de fora do quarto uma poça de sangue começava a escorrer pelo corredor.

 

Parte 6

Mariana achou estranho Carol não ter atendido as ligações e resolveu voltar para o hospital e ver o que tinha acontecido. Após longas duas horas dentro de um carro ela já não aguentava mais ver árvores e linhas retas. E finalmente conseguia ver o hospital.

– Finalmente!

Desceu do carro segurando o celular para iluminar o lugar. Estava tudo completamente escuro. As janelas da frente estavam quebradas. Por conta da falta de energia a porta da frente não abria. Mariana teve que entrar pela janela. Acabou machucando a mão por causa disso. Após se equilibrar totalmente do lado de dentro do hospital pegou o celular e apontou para o chão com o intuito de iluminar o caminho. E foi então que ela viu uma mancha de sangue.

– O que aconteceu aqui?

Foi correndo para o quarto onde estava Isabela. Viu uma enorme poça de sangue na porta e deu um grito. Começou então a olhar para todos os lados assustada. Mas não tinha nada ali, apenas alguns gemidos que vinham do lado de dentro do quarto.

– Isabela? Carol? são vocês?

Ela então se aproximou da porta querendo ouvir melhor. E uma voz quase falhando gemia:

– So…co…rroo

– Carol é você? Vou tentar abrir a porta! Afaste-se da porta!

E então começou a se jogar na porta. Pela mesma já ser velha e enferrujada abriu-se com extrema facilidade. Mariana então olhou por tudo. Havia sangue por toda a parede e piso. E no chão estava Carol. Pressionando o pescoço com as duas mãos tentando estancar o sangue. Mas era praticamente impossível. Era um corte de orelha a orelha.

– Minha nossa Carol! Quem fez isso com você? Cadê a Isa?

Carol então sem poder falar apenas apontou para um texto na janela do quarto. “20 de maio”. Escrito com sangue. Após isso ficou completamente imóvel. Mariana sem ter como encarar aqueles olhos arregalados e sem vida levantou e saiu correndo porta fora. E se deparou com uma menina na porta.

Ela estava de costas e tinha um enorme cabelo negro. Mariana foi se aproximando lentamente.

– Isabela?

Parou de repente quando a tal menina começou a se virar. Mariana então soltou um grito e começou a fugir. A tal menina não tinha olhos, nariz e boca. Em seu lugar tinha um buraco que parecia não ter fim.

– O que está acontecendo aqui? – gritou uma menina nas sombras.

– Quem é você? – perguntou Mariana.

– Sou eu, Isa!

 

Parte 7 – O Final

Mariana deu um salto para trás. Era nítida a expressão de medo em seu rosto.

– O que houve com seu rosto Isa?

A menina estava praticamente em carne viva. Na sua mão uma faca que não parava de pingar gotas de sangue vivo.

– Não aconteceu nada. Estou mais bonita que de costume.

Mariana percebendo que algo estava errado começou a tatear um balcão que estava na suas costas em busca de alguma coisa pontuda.

– Você não é a Isa. A verdadeira Isa jamais teria ferido alguém.

– Ela era irritante demais e muito egoísta. E loira.

Uma luz que vinha da rua iluminou o lugar onde as duas estavam. Mariana desesperada começou a correr em direção àquela luz.

– Vão embora! Isa enlouqueceu! Fujam!

Os amigos de Mariana haviam voltado de carro para o hospital. Afinal não tinham notícias da mesma faziam 5 horas. Jorge então desceu no carro.

– Graças a Deus Mariana! Nossa você está pálida..

– Jorge leve todos embora daqui! Alguma coisa possuiu a Isa. Ela matou a Carol e está vindo atrás de mim. Fuja Jor…

E então algo a atravessou no peito.

– Merda! Merda!!!

Jorge começou a correr desesperado em direção do carro. Isa pegava de volta a estaca de madeira que cravara em Mariana.

– Pessoal abre a porta! A chave não tá funcionando!

Isa se aproximava lentamente. Então abriu um sorriso.

– Jorge, pare. Será em vão.

Ele então parou e olhou para ela. Que já apontava a estaca ensanguentada na sua direção.

– Isa…Por que está fazendo isso? Somos seus amigos!

– Vocês me abandonaram naquele dia! Você lembra? Dia 20 de maio. Eu fiquei abandonada numa casa sendo atormentada por coisas que até hoje não consigo explicar. Olhe para o retrovisor do carro. Olhe!

Jorge então olhou. Um homem vestindo preto olhava fixamente para ele. Sentiu algo o ferir nas costas. O tal homem lhe cravava uma estaca de madeira. Jorge virou e então viu Isabela.

– O que é você? – disse enquanto ainda insistia em fugir

– Quando vocês abandonaram Isabela naquele dia eu apareci para ela. De diversas formas. No começo queria apenas assustá-la, menina tão bobinha e impressionável. Mas então vi que ela tinha algo de especial. Ela não tinha sentido raiva de vocês em nenhum momento. Pelo contrário, se sentia culpada pela morte da mãe de sua amiga. Foi morar numa casa completamente estranha apenas para deixar vocês confortáveis. Ela sentiu muito medo de mim. Eu pedia para deixar aquela casa e ser feliz mas quanto mais fazia isso mais assustada ela ficava. Então depois de algumas horas encontrei-a na rua. Dormindo na calçada. Ninguém ofereceu um cobertor sequer para ela. Me aproximei lentamente e sentei ao seu lado. Ela acordou e tentou fugir. Tive que impedi-la.

– O que você fez com ela?

– Naquele dia todos estavam escondidos nas suas casas com medo da Morte aparecer e levá-las para o inferno. Essas pessoas estavam apenas com medo de mim. Eu gostava disso. Mas Isabela não. Com ela não tive a intenção de fazer maldade alguma. Percebi depois de um certo tempo conversando com ela que não adiantaria nada. Ela continuaria com medo de mim e iria ter muitos pesadelos todas as vezes que eu aparecesse. Contra a minha vontade levei a alma dela para um lugar mais seguro e resolvi morar em seu corpo e fazer aqueles que a abandonaram pagar.

– Você…ma..tou…a…Isa…

– Eu fiz o que precisava ser feito. Agora só falta você. E então a alma e o corpo dela poderão descansar em paz.

– Vo…cê…a…ma…tou!

– Me desculpe Jorge. Mas para seu azar é assim que sua história deve terminar.

Após dizer isso Isabela pegou uma faca em seu bolso e deu 50 facadas em Jorge. E então tudo ficou negro e gelado.

Uma sombra preta saía de dentro de Isabela enquanto a mesma caía vagarosamente no chão. Completamente sem vida. Sua pele fora dilacerada e não tinha mais aquele ar bondoso de outrora. A sombra então andou até a rua. E desapareceu entre a escuridão da estrada.