Hibisco Roxo — Resenha

Hibisco Roxo — Resenha

12 de maio de 2018 2018 Drama Livros 0


Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Título Original: Purple Hibiscus
Título Traduzido: Hibisco Roxo


Logo na contracapa do livro tem um diálogo entre dois personagens. Naquele momento eu decidi levar o livro na livraria. Além da capa lindíssima da Companhia das Letras.

A leitura começa lenta, muitas palavras em Igbo (a história se passa na Nigéria e Igbo é um grupo étnico da África e também o idioma falado por eles) e quase nenhuma com a tradução o que dificultou a leitura no começo. Mas lá pela página 50, mais ou menos, já ficamos acostumados com a família de Kambili (personagem principal da história) e o que os rodeia.

Kambili tem um pai extremamente abusivo, sério, um lixo de pessoa, que é um pouco obcecado pelo catolicismo e um homem bastante poderoso na cidade, além de rico. Mantem os filhos numa espécie de coleira, por 15 anos (se não me engano essa é a idade de Kambili) eles tem os passos programados pelo pai. Uma grade de horários fixos com pouco ou nenhum tempo de diversão e descanso. Muitas punições físicas todas as vezes que os filhos ‘pecam’.

Quando digo que Eugene (esse é o nome do pai) é um lixo de pessoa, eu não estou apenas bancando a revoltada de internet. Ele é o tipo de pai que a gente definitivamente não quer por perto e também um marido horrível. Ele mantém aquele efeito do “morde e assopra”. Espanca a esposa e os filhos e em algumas vezes quase os deixou na beira da morte mas depois parecia se arrepender e vinha com abraços e carinhos e “eu te amo” pra lá e pra cá.

Não me admira a atitude que a mãe de Kambili tem nas últimas páginas.

Mas curiosamente Eugene também parece ter um certo altruísmo. Em alguns momentos da história descobrimos que ele ajudava financeiramente certas pessoas da cidade e doava dinheiro para lugares que acreditava. Mas seu fanatismo religioso (e também o abuso sofrido na sua infância — que pode ou não ser verdade ¯_(ツ)_/¯) colaboram para uma personalidade perigosa.

E Kambili demora algum tempo para perceber que o mundo não era só rezar, estudar e obedecer regras sem questionar. E isso acontece depois de uma visita a tia Ifeoma (mulherão maravilhosa inclusive).

Durante essa visita na casa da tia o irmão de Kambili pega umas mudas de hibisco, que na história eles tem uma cor roxa por um motivo que não lembro agora (desculpa gente), e leva para a casa. Eu fiz uma estranha relação com isso. Por algum motivo passei a acreditar que o ato de levar os hibiscos para a casa deles seria uma linguagem metafórica para a rebelião. Afinal eles eram os filhos perfeitos que obedeciam todas as regras de cabeça baixa, e logo após o retorno para a casa deles o comportamento de ambos (Jaja e Kambili) se torna gradualmente diferente. E paralelo a isso as mudas de hibisco também começam a crescer vagarosamente. Será que faz algum sentido isso?

Sendo completamente honesta agora. Eu gostei muito da escrita de Chimamanda. Essa mulher é criativa demais. A história do livro foi tomando rumos que eu não consegui imaginar em nenhum momento. E definitivamente é um livro bem fora da minha zona de conforto. Apenas me decepcionei com um detalhe no final. Mas terminei o livro sentindo vontade de saber mais sobre a vida futura de Kambili, Jaja e Ifeoma.

No início do post eu fiz um elogio ao trabalho de capa da Companhia das Letras, e realmente ficou incrível. MAS, a edição no geral me deixou bem desconfortável por causa das palavras em igbo não traduzidas. Me incomoda os editores/revisores/tradutores não terem se esforçado um pouco mais para colocar um glossário ou pequenas observações no fim das páginas a respeito daquelas palavras daquele idioma cuja tradução no google fica imprecisa. Também achei uns dois errinhos bobos de digitação (o que não é tão ruim pra quem já leu livros da Intrínseca, por exemplo).

Algumas palavras do livro: Aku, Allamanda, Atilogwu, Boubou, Bournvita, Cassava, Chaplaincy, Chin Chin, Cocoyam, Dogonyaro, Enugu, Étagère, Fela, Garri… (o link acima vai para um glossário em inglês das palavras citadas aqui e de várias outras)


Por hoje é só!
Um beijo no queixo
Annie Bitencourt