Os Olhos – Especial Mês do Terror

Até mesmo os homens mais cruéis conseguem chorar. Poucos são aqueles com os tais “olhos secos”. Onde já não há mais brilho. O olhar assustaria até o mais valente dos demônios.

Meus olhos secaram quando eu ainda não sabia soletrar. Foi de repente. O mundo girou muito mais lentamente e pude ver todas as cores se tornando cinzas. Meus pais chorar por eu não chorar. “Estou bem” repito muitas vezes, mas até os médicos duvidam.

“Ela tem olhos mortos”. Disseram que olhar fixamente para as minhas pupilas faria as pálpebras derreterem. O ruim sempre vai acontecer.

Já previram que meu olho iria quebrar e o primeiro a testemunhar isso teria anos de azar.

Quantas vezes é preciso desviar o olhar com medo do que não é compreendido? A vizinha, uma bruxa mesmo, vive amaldiçoando mas não consegue me ver sem óculos escuros.

“Não olhem crianças, é a morte que caminha entre vocês”. O reverendo Williams acredita de verdade que a pior coisa da vida usa calça jeans e camiseta caqui.

Então fecho os olhos. E dentro de mim sinto uma ardência muito forte. “O que está acontecendo?” Eu penso. Tudo está queimando. Tento enxergar novamente, os olhos não abrem. “Socorro!” “Socorro!” Grito mais alto. “Meus olhos morreram.”

Sinto um toque no ombro. Começo a ser guiada para algum lugar. “Onde estou?”. A mão me empurrou e senti meu chão mais gelado. “Está frio”. Meu corpo já não queimava mais. Então senti dedos tocando meus olhos. Puxando-os com força para cima.

O mundo voltou. As cores voltaram. Vi uma mulher parada. Me olhando. “Cuidado! Eles matam!”. Ela negou com a cabeça e disse sorrindo: nunca mais.

 

 

 

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